O Fantasma da Freira – Reitoria Borley (Inglaterra)

É complicado escrever sobre casos de fantasmas de maneira objetiva, principalmente porque trata-se de uma experiência completamente subjetiva e a maior parte das evidências é baseada apenas em relatos de testemunhas e, relatos desse tipo não são totalmente confiáveis.

Em uma pequena paróquia, em um local solitário ao sul da Inglaterra, existem apenas alguns poucos restos de uma das casas mal-assombradas mais famosas que se tem relatos: a Reitoria Borley, no condado de Essex.

História

A Reitoria Borley foi construída perto da Igreja de Borley, pelo Reverendo Henry Dawson Ellis Bull em 1862. Pouco depois ele se mudou para lá e começou a ampliar a casa de maneira que pudesse abrigar sua enorme família com 14 filhos. Inicialmente a casa tinha 18 quartos e quando concluída ficou com 23 quartos.

A igreja perto dali pode se datar do século XII e serve toda uma comunidade rural de aldeias próximas. Existem ainda várias casas de fazenda e os restos do que um dia foi a Reitoria Borley.

Há uma lenda de que naquela região foi construído um mosteiro beneditino por volta dos anos 1360. Supostamente um dos monges que ali habitava teve um relacionamento com uma freira de um convento próximo. Quando o caso foi descoberto, o monge foi executado e a freira emparedada viva nas paredes do convento. Posteriormente foi verificado que não havia nenhuma base histórica que desse sustentação a essa crença, que teria sido criada a partir de romances dos anos 1800.

Assombrações

Os primeiros relatos de atividades estranhas no local começaram desde 1819 (uma estranha freira parecia andar por ali). Será que a aparência estranha da construção cooperava para estranhos eventos? Depois de 1863, quando a família do reverendo se mudou para lá, começaram a relatar coisas estranhas. Os acontecimentos podem ser divididos em dois tipos: os anteriores e os posteriores a morte de Henry Dawson.

Em 1900, quatro das filhas de Henry Dawson contaram que viram o que parecia o fantasma de uma freira a pouco mais de 30m da casa, mas quando elas se aproximaram, a freira simplesmente desapareceu.

A figura da freira era vista com tanta frequência em um caminho que passava por um lado dos jardins, que este passou a ser chamado de “passeio das freiras“. Conta-se que Henry era tão fascinado por esta figura que ele tinha uma casa de veraneio construída no fim do jardim, principalmente para que de lá ele pudesse ver as aparições da freira.

Na sala de jantar da casa, havia uma janela que foi emparedada. O motivo? A freira aparecia tantas vezes na janela enquanto eles comiam, que Henry ficou irritado e assustado que resolveu mandar remover a janela e emparedar a abertura. Existem outras suposições para o emparedamento dessa janela, já que antigamente, na Inglaterra, os impostos eram baseados no número de janelas que uma casa continha, então algumas pessoas removiam janelas para pagar menos impostos. Mas neste caso a teoria pode ser inválida, já que o imposto sobre as janelas já havia sido revogado desde 1851.

Várias pessoas comuns também relataram ter visto incidentes intrigantes, como por exemplo uma pessoa sendo conduzida por dois cavaleiros sem cabeça. Isso foi relatado seguidamente por mais de 40 anos.

Henry Dawson Ellis Bull morreu em 1892 e seu filho, o Reverendo Henry (“Harry”) Foyster Bull assumiu a função do pai e foi a partir daí que os eventos sobrenaturais começaram a mudar. A freira passou a ser vista apenas as vezes, e estranhos fenômenos começaram a acontecer dentro da casa.

Dizem que objetos da casa simplesmente desapareciam e depois reapareciam do nada, os sinos que eram usados para chamar os empregados começavam a tilintar sozinhos, pequenas pedras eram arremessadas contra a casa (e as vezes sobre algum ocupante) por entidades invisíveis e sussurros e passos eram ouvidos no andar superior da casa mesmo quando não havia ninguém lá.

Além dessas coisas estranhas, alguns visitantes relataram ter visto figuras masculinas escuras dentro da casa, que apareciam e desapareciam de maneira abrupta. Foram relatadas algumas vezes que as luzes da sala principal ficavam acesas mesmo quando não havia ninguém lá. Em ao menos duas ocasiões enviaram alguém para investigar e, em ambas foi relatado que a sala estava completamente escura, mas aqueles que estavam do lado de fora confirmaram que as luzes estavam acesas.

Uma das casas de veraneio no jardim da residência

Parece que a família ficou mais intrigada do que propriamente assustada com tudo aquilo que vinham passando. Harry chegava a falar em tom de brincadeira para suas irmãs que estava “indo comungar com os espíritos“, quando se retirava para a casa de veraneio ao fim do jardim para seus cochilos. Os filhos de Henry simplesmente pareciam aceitar todas aquelas coisas estranhas, como uma criança qualquer faz quando está tudo normal.

Em 1927, Harry Bull morreu e então a casa da reitoria ficou vaga novamente, sendo ocupada apenas no ano seguinte pelo reverendo Guy Eric Smith e sua esposa. A família Smith não ficou muito por lá, mas durante o pouco tempo que estiveram, muitas coisas aconteceram.

Pouco depois da mudança, a esposa de Smith foi limpar um armário e encontrou um pacote feito de papel com um crânio dentro. Eles também relataram ouvir passos, sinos tocando mesmo quando não estavam conectados e luzes aparecendo nas janelas.

Em 1929, a família entrou em contato com o jornal Daily Mirror pedindo ajuda para entrar em contato com a Sociedade de Pesquisa Psíquica e em junho daquele ano o jornal enviou um repórter até a casa. Ele escreveu vários artigos sobre os mistérios de Borley. Adicionalmente, o jornal também conseguiu que o pesquisador paranormal Harry Price visitasse o local. Ele chegou em 12 de junho e, logo após sua chegada começaram fenômenos nunca antes vistos, como pedras e vasos sendo arremessados, mensagens espirituais, entre outros. Estranhamente, assim que Harry saiu da casa, tudo parou. A esposa de Smith sugeriu depois que Price tivesse falsificado os fenômenos.

Depois de tantos problemas, os Smith decidiram deixar a Reitoria Borley em julho de 1929. A paróquia não conseguiu um substituto facilmente, então só no ano seguinte a reitoria voltou a ser habitada, dessa vez os novos moradores eram o reverendo Lionel Algernon Foyster, sua esposa Marianne e sua filha Adelaide.

Foi no período que os Foysters habitaram a residência que os fenômenos pareceram atingir seu auge. Nos 5 anos que moraram lá houveram diversos eventos, alguns até extremos, como por exemplo Marianne Foyster alegou ter sido fisicamente atacada por entidades invisíveis mais de uma vez, o surgimento de letras escritas nas paredes, toques de sino, passos, sussurros, entre outros.

Lionel Foyster tinha graves problemas de saúde e este motivo foi o principal para que eles deixassem a residência em outubro de 1935.

Mais investigações

Novamente a Reitoria Borley ficou vaga por algum tempo, até que em 1937 Harry Price assinou um contrato de locação da propriedade por um ano. Price então colocou um anúncio no The Times, com a intenção de juntar um grupo de pessoas para fazer uma espécie de vigilância do local. Eles deveriam relatar qualquer fenômeno estranho que ocorresse.

A filha de um dos ajudantes de Price (Helen Glanville) fez uma sessão espírita em Streatham, no sul de Londres. Como resultado dessa sessão, ela afirmou ter conseguido contato com 2 espíritos. Um deles, seria o de uma freira chamada Marie Lairre que teria abandonado sua ordem religiosa e se mudado para a Inglaterra para se casar com um membro da família Waldegrave (proprietários da mansão de Borley no século XVII). Ela teria sido assassinada e jogada em um poço qualquer ou enterrada no porão.

O outro espírito contatado se identificou como Sunex Amures e esse por sua vez disse que iria incendiar a reitoria naquela mesma noite (27/03/1938). Ele também afirmou que os ossos de uma pessoa assassinada seriam revelados.

Um pouco sobre Harry Price

Price é tão central na história da Reitoria Borley que merecemos explicar um pouco sobre este homem único.

Harry Price

Harry Price nasceu em Londres em 1881 e desde pequeno se interessou por assuntos psíquicos. Depois de 1908 ele passou a se interessar bastante por espiritualismo e no contato com o mundo dos mortos, chegando a ter vários seguidores influentes (entre eles Sir Arthur Conan Doyle).

Em 1920, ele ingressou na Sociedade de Pesquisa Psíquica (SPR), grupo que investigava atividades paranormais e de espíritas. Price, diferentemente dos outros do grupo, queria usar técnicas científicas para as investigações e acabou fundando seu próprio Laboratório Nacional de Pesquisa Psíquica (NLPR). Quando ele se envolveu na investigação da Reitoria Borley seu grupo já estava grande, contanto com apoio de equipamentos avançados, cientistas e estudiosos. Ele foi o o protótipo dos que hoje são os caçadores de fantasmas, usando microfones, termômetros, câmeras e etc.

Livro de Harry Price

Em 1940, Price publicou A Casa Mais Assombrada da Inglaterra – Investigação de Dez Anos da Reitoria Borley. Nesse livro ele relata com mais detalhes vários eventos paranormais na Reitoria ao longo dos anos. O livro foi um sucesso e aumentou ainda mais a fama da Reitoria Borley. Posteriormente ele ainda iria escrever um livro especificamente sobre Borley: The End of Borley, descreve a destruição da casa e as escavações que fizeram no local nos anos seguintes (nesse livro há uma foto tirada durante a demolição da reitoria que parecia mostrar um tijolo levitando misteriosamente).

Em 1948, Price morreu. Ele estava trabalhando em um novo livro sobre a Reitoria, mas não chegou a concluí-lo. Em todos os seus livros, ele realmente parecia acreditar que haviam atividades paranormais reais na casa, o que fez com que muitas outras pessoas também passassem a acreditar.

Incêndio

Quando o novo proprietário da reitoria, WH Gregson ainda estava terminando de fazer sua mudança para lá, acidentalmente deixou cair uma lâmpada de óleo no corredor. Rapidamente o fogo se espalhou e danificou muito a casa.

A sra. Williams, que morava perto dali, disse que viu a figura da freira na janela do andar de cima naquele dia, mas ela teria exigido um pagamento em dinheiro para afirmar sua história.

Em 1943, Harry Price conduziu uma escavação nos porões da casa e descobriu alguns ossos que se pensava serem de uma mulher. Reuniram esses ossos e fizeram um enterro no cemitério de Liston (pois a paróquia de Borley não aceitou, já que a opinião local é de que aqueles ossos não eram de uma pessoa e sim de um porco).

Sociedade de Pesquisa Psíquica

Depois que Harry Price morreu, o repórter do Daily Mail, Charles Sutton o acusou de fingir os fenômenos. Quando o repórter visitou a reitoria em 1929 ele foi atingido por uma pedra e posteriormente afirmou que encontrou os bolsos de Price cheios de pedras de vários tamanhos.

Em 1948, alguns membros da Sociedade de Pesquisa Psíquica investigaram as alegações de Price sobre Borley e publicaram um livro sobre essas descobertas em 1956, chamado: The Haunting of Borley Rectory, que afirmava que Price havia produzido alguns dos fenômenos.

Esse estudo ficou conhecido como “O Relatório Borley” e como disse, afirmava que muitos fenômenos foram falsificados ou eram devido a causas naturais como ratos ou a estranha acústica da casa. Os autores escreveram: “quando analisadas, as evidências de atividade assombrosa e poltergeist para cada período parecem diminuir em força e finalmente desaparecer”. Terence Hines escreveu também que Marianne Foyster estava muito engajada na criação de fenômenos assombrados falsos.

Marianne Foyster assumiu depois de muitos anos que não tinha visto nada estranho e que os ruídos assustadores eram na verdade causados apenas pelo vento. Os filhos de Harry Bull (que moraram na casa antes dos Foyster) também alegaram que nunca viram nada estranho e chegaram até a ficar surpresos por terem vivido no que é considerada a casa mais mal-assombrada da Inglaterra.

Considerações

Infelizmente as evidências sugerem que não havia nada assombrado na Reitoria Borley, mas, porque tantas pessoas e por tanto tempo, relataram ter visto fantasmas e experimentado estranhos fenômenos? Qual a intenção disso? Acho necessário examinar separadamente alguns dos que moraram na casa.

Henry Bull

Reverendo Harry Bull

Ele realmente parece que acreditava na existência da freira, afinal, disse que a viu mais de uma vez, mas, alguns de seus filhos afirmaram posteriormente que tudo havia sido inventado.

Mas, porque um respeitado clérigo e membro de uma rica família da região inventaria uma história dessas? Se examinarmos a certidão de óbito dele, podemos ter algumas ideias.

O atestado de óbito de Henry Bull diz que sua causa mortis foi “Ataxia Locomotora”. Esta é uma manifestação da fase terciária da sífilis. Essa fase pode aparecer de várias maneiras e uma delas, chamada neurossífilis pode atacar o cérebro e causar a Ataxia Locomotora, que causa perda de equilíbrio, dores de cabeça e incontinência. Uma vez que ela ataca o cérebro, pode levar a alucinação e até demência.

Então, é possível que em vez de uma família bucólica e maravilhosa, a esposa e filhos tenham visto o pai sofrer uma morte lenta e dolorosa, que foi piorando cada vez mais com o avanço da demência e alucinações. Henry Bull pode realmente ter visto figuras fantasmagóricas na sua cabeça e com a intenção de manter as aparências de uma família comum, sua história foi sustentada pelos familiares.

Harry Bull

Harry também afirmou ter visto a freira algumas vezes. Certamente houve influência do seu pai. Além disso, é sabido que ele sofria de narcolepsia (doença que faz a pessoa adormecer de repente) e muitas pessoas que sofrem disso tem alucinações antes de cair no sono. Logo, é possível que ele também tenha sofrido dessas alucinações, condicionado pelas crenças do pai.

Eric e Mabel Smith

Quando eles se mudaram para a Reitoria, a casa já era enorme e podia facilmente abrigar mais de 20 pessoas. Só que agora ela era ocupada apenas pelo casal e uma empregada. Imagine que ela deveria parecer assustadora, já que a casa não tinha aquecimento e a iluminação era proveniente apenas de lâmpadas de óleo e a maior parte dos quartos nunca eram usados. Lembre-se também que a madeira se expande durante o dia com o calor e a noite, quando a temperatura diminui, ela contrai. É fácil imaginar assombrações em uma situação como essa.

Após a morte de Eric, em 1940, Mabel foi entrevistada e negou por completo ter experimentado qualquer situação ou evento paranormal enquanto morou na Reitoria.

Os Foysters

Como disse nos primeiros parágrafos, foi quando os Foysters habitaram a casa que os eventos começaram a mudar, ficar mais assustadores e mais recorrentes. Para entender isso, vamos analisar as personalidades envolvidas.

Marianne Foyster era 22 anos mais nova que Lionel. Quando se mudaram para a reitoria, ele já estava bastante doente, sofrendo de artrite reumática (o que pode ter piorado na casa úmida e sem aquecimento).

Lionel e Marianne se casaram em agosto de 1922, quando Marianne tinha 23 anos e Lionel 45. O detalhe aqui é que Marianne na verdade já era casada e tinha um filho chamado Ian, porém estava separada fisicamente do marido (não existe registro de divórcio). Lionel sabia da existência de Ian, mas parece que ele não sabia que ele era filho de Marianne, nem que ela era casada.

Marianne parece que foi um pouco ambivalente nesse relacionamento. Até 1934, as visitas de um homem chamado François d’Arles passaram a ser frequentes, junto com seu filho. Seu nome verdadeiro era Frank Peerless, que era inglês e também casado. Aparentemente eles tiveram um caso no começo dos anos 30. Durante um tempo eles foram sócios em uma floricultura e durante esse tempo, eles moravam em Londres durante a semana e só voltavam para Borley nos fins de semana.

Marianne e o pequeno John

Muito tempo depois, Marianne afirmou  que era chantageada por Peerless por eles terem um caso. Ele ameaçava a contar a Lionel sobre tudo. Ela contou que eles brigavam muito e as vezes até fisicamente. Uma vez ela contou a Harry Price que seu olho roxo teria sido causado pelo fantasma da Reitoria, mas é mais provável que tenha sido uma sequela de uma das brigas com Peerless.

Em 1933 um anúncio publicado no jornal, procurava alguém que pudesse ajudar a cuidar de um bebê recém-nascido. Lionel e Marianne alegaram que o bebê, John, era adotado, mas Ian disse posteriormente que tinha certeza de que Peerless era o pai daquela criança.

Infelizmente o pequeno bebê morreu com menos de 5 meses de vida. No ano seguinte a floricultura faliu e as coisas começaram a piorar quando Peerless tentou chantagear Lionel, ameaçando contar seu caso com Marianne à igreja. Isso acabou se resolvendo sozinho quando Peerless fugiu com uma garota que trabalhava na loja de flores.

A saúde debilitada de Lionel e a saúde financeira do casal estavam de mal a pior. No fim de 1934, Marianne foi morar em Ipswich, e Lionel permaneceu em Borley. Em 1935, ela casou com Henry Fisher (mesmo ainda sendo casada com Lionel), que sofria problemas de saúde mental. Eles foram morar na Reitoria Borley. Imagine então que complicado deve ter sido, para Fischer, Lionel era o pai de Marianne e para os moradores da região, Lionel e Marianne ainda eram um casal.

A história deles parece interessante? Mas qual seria a relação entre eles e os eventos na Reitoria? Parece claro que Marianne era empreendedora, que incentivada pelo próprio marido, podia facilmente enganar ou mentir para conseguir dinheiro. Vale lembrar que quase todos os eventos foram testemunhados apenas por ela ou ocorreram só quando ela estava sozinha. Acho que ela inventou tudo para ser o centro das atenções. Lembre também que quando eles se mudaram para Borley, Lionel já estava doente. Enquanto conseguisse trabalhar, tudo bem, mas e depois que a doença avançasse?

Reitoria após o incêndio

Mas e você, o que acha? Acredita que a Reitoria Borley foi realmente uma casa mal-assombrada? Ou você pensa que tudo pode ter sido apenas armação para trazer alguma fama ao local? Deixe seu comentário

Fontes:
Wikipedia
Mystery Ink Site
EADT

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